segunda-feira, 27 de junho de 2016

CONDIÇÕES DA CONCENTRAÇÃO E DA OBSERVAÇÃO





CONDIÇÕES DA CONCENTRAÇÃO E DA OBSERVAÇÃO

Taisen Deshimaru Roshi  - Do livro: La Pratique de la Concentracion


Durante os primeiros minutos de zazen, o cérebro é semelhante a uma janela aberta pela qual sopra uma forte corrente de ar; os pensamentos se sucedem sem cessar. Depois com o prolongamento da prática a corrente dos pensamentos decresce e depois para. Quando o vento para de soprar, encontramos a calma, o cérebro se torna um lugar tranqüilo. É muito difícil criar e manter um estado de consciência justo.
A extinção do pensamento instaura o estado de concentração [shi]; pela concentração nossa mente torna-se calma.
Todavia, essa condição da mente não define por si só o verdadeiro Zen. A simples cessação do pensamento, com efeito, constitui apenas um aspecto da verdadeira condição de zazen e conduz a um estado de sonolência chamado [kontin]; a mente não pode manter o estado de vigilância que requer um certo estado de tensão da consciência e necessita uma atividade.
Por isso Dogen disse: "é preciso pensar do fundo do não pensamento".
Esta vigilância ativa é a observação [kan], a Segunda componente da condição de zazen; [shi] e [kan] associados dão a atitude correta da mente durante zazen; produzidos simultaneamente, eles são a expressão mais elevada da consciência, que é chamada [hishiryo], pensamento absoluto, além do pensamento.
Mas nos primeiros tempos de zazen, antes de chegar a esta condição perfeita da consciência, o estado de concentração e o estado de observação se sucedem alternadamente.
A Concentração sozinha, como vimos, conduz a um estado de obscurecimento da consciência, tal como uma vela que se consome e se apaga.
Para não se cair totalmente na sonolência, devemos começar a praticar a Observação; esta constitui o despertar da consciência desde o subconsciente; os pensamentos são encaminhados até a consciência e observados por ela; quando o pensamento brota logo desaparece imediatamente, a observação que daí resulta é chamada [vicara] em sânscrito; trata-se duma "observação clara", instantânea; mas quando o pensamento permanece, a Observação se prolonga igualmente, esta é chamada de [vitaka]. Uma persistência muito longa do estado de observação conduz à consciência [sanran], consciência agitada e dispersa; o vento dos pensamentos sopra de novo violentamente e perturba a luminosidade estável e doce que emanava da flama. Neste momento, é preciso deixar qualquer pensamento, e conduzir seu espírito ao estado de Concentração.
Assim se forma o ciclo da Concentração e da Observação.
Podemos desde já concluir que é muito difícil criar e manter um estado de consciência correto: o prolongamento do estado de Concentração conduz ao estado de [kontin], o prolongamento do estado de Observação, ao estado de [sanran]. Como resolver esse dilema? É um koan.
Dogen respondeu por [hishiryo] o outro lado, além do pensamento - Para se chegar a esta consciência absoluta, é necessário previamente deixar claro os métodos apropriados para aí chegar. O Zen ensina três métodos de Concentração. E dois de Observação.

1. - A CONCENTRAÇÃO
Entrando no [dojo], a mente está ainda impregnada de agitação e de solicitações que suportamos no mundo exterior. Assim, desde que nos sentamos em zazen, esta agitação gravada em nosso ser tende a ressaltar por ondas desordenadas, o problema reside no fato que, para os principiantes sobretudo, a consciência tem tendência a se ligar, a se enganar por essas ondas de agitação.
Então é necessário praticar a concentração.

A - PRIMEIRA FORMA DE CONCENTRAÇÃO consiste em colocar sua mente sobre a linha vertical fictícia que liga o nariz ao umbigo, quer dizer que é preciso estar atento em guardar a retidão exata da postura, retidão que atesta o estado de concentração e de vigília. Para ilustrar esta atitude mental, os Mestres têm seguidamente recorrido à imagem de um macaco preso a uma estaca, onde o macaco é a mente agitada, e a estaca, é a postura rigorosamente direita.

B - SEGUNDA FORMA DE CONCENTRAÇÃO consiste em deixar passar os pensamentos, em se desviar da sua aparição, em deixá-los desde que nos apercebamos de que nós estamos imóveis.

C - TERCEIRA é a mais difícil, ela corresponde à realização imediata de nossa verdadeira natureza, que não tem substância própria. Da compreensão última desta noção brota o despertar supremo. Esta é a certificação última do fim da ilusão dualista: o eu é inacessível, pois ele é sem substância; se bem que ele exista, é sem realidade. Vazio [ku].
Assim não podemos agarrar nossa mente que não tem substância própria. [Shin fuka toku]. "Minha mente é inapreensível" é a resposta famosa de Eka a Bodhidharma.
Não é pois, mais necessário agarrar, controlar, acalmar, pacificar; é suficiente deixar passar as ilusões, deixá-las desaparecer por elas mesmas, e, portanto, de se conformar à ordem cósmica e de deixá-la trabalhar. A concentração se estabelece então sem esforço, inconscientemente, naturalmente, automaticamente, pois todo dualismo se extingue na unificação da mente com a mente. Nesse estado, não resta mais traço da menor sombra de discriminação, porque a mente não se objetiva mais, não se vê mais a si mesma.
Este é o estado chamado Nirvana, a extinção total de toda forma discriminada no UM absoluto.
Quando eu era principiante no Zen, eu me concentrei exclusivamente em zazen, quer dizer sobre a postura correta da qual depende o estado de concentração correto. Mas compreendi em seguida que o verdadeiro zazen não residia unicamente na atitude concentrada da mente e do corpo: a verdadeira condição da mente que deve resultar da prática de zazen é ao mesmo tempo concentração subjetiva e observação objetiva. Essa condição de observação coloca um problema difícil porque ela conduz rapidamente o praticante {sobretudo se ele não tem um longo hábito do zazen} a uma atitude dispersa da consciência; mas de outro lado, esta condição de observação é uma necessidade, porque, desde o cessar do pensamento consciente, o subconsciente, não estando mais embaraçado pelas barreiras da consciência, se mostra livremente; por outro lado, a observação do subconsciente que desfila diante do olho da consciência conduz à compreensão verdadeira, quer dizer não intelectual, desse subconsciente; essa compreensão, direta, intuitiva, imediata, é a condição requerida para que surja a autêntica sabedoria [prajna] que se manifesta progressivamente através da consciência [hishiryo].
Esta consciência [hishiryo] é a atitude a mais justa da consciência e seu degrau supremo da realização, nela estão contidos ao mesmo tempo a Concentração Perfeita e a Observação Ilimitada e imediata do Todo.
A sabedoria infinita e o espírito de grande compaixão que são aí manifestados se prolongam na multiplicidade das ações de nossa vida: atividades, comportamentos e atitudes do corpo, da palavra e da mente, que atestam muito precisamente o grau de despertar da consciência.
De outro modo, a totalidade de nossas ações cotidianas constitui elas mesmas terreno de treinamento de nossa consciência na prática da concentração e da observação.
Todavia, zazen continua a ser o lugar onde a experimentação é mais lúcida e mais intensa, permitindo a concentração se suceder a observação desde que esta se torne excessiva e falsa e inversamente, até a obtenção da harmonia perfeita das duas, unidas em [jo-e], a sabedoria [e], na serenidade [jo].

2 - A OBSERVAÇÃO [KAN]
Dogen escreveu no Fukanzazengi:
"Pense do fundo do não pensamento".
Esta frase explicita o estado de observação de zazen, e complementa aquela que exprime o estado de concentração
"Não pensar do fundo do pensamento".
Quando durante zazen os pensamentos se elevam do subconsciente e afloram na consciência, a mente mergulha em um estado de dispersão e agitação, que a prática da observação é então requerida, visando anular as perturbações engendradas na consciência.
Esse método de observação é composto por duas técnicas:
observação relativa, e observação direta.

A - OBSERVAÇÃO RELATIVA
Ela mesma tem dois aspectos.
  • A observação das impurezas, e das manchas [fukojan] em japonês. O sutra de Hannya Shingyo
(O Sutra do Coração) diz que não há nem impurezas, nem beleza nem feiúra, nem mal nem bem.
Estas afirmações situam a natureza dos fenômenos na unidade absoluta indiferenciada, e define desse modo a percepção unitária não dualista.
Na época de Budha Shakyamuni, era corrente praticar a meditação próximo a cadáveres. A finalidade dessa prática era conduzir a consciência a uma visão mais correta sobre a natureza das existências, que define [mujo], a impermenência. Esta noção de impermanência é de muita importância porque ela define implicitamente a natureza não substancial de todas as coisas.
Todas as existências, sensíveis e não sensíveis, sofrem as transformações engendradas pelo tempo. Assim devemos não considerar os fenômenos sob seu aspecto atual e momentâneo de beleza, de bondade, ou de pureza, mas considerar também seu aspecto contrário, potencialmente contido no aspecto atual. Deve-se considerar a impermanência de todas as coisas, seu nascimento, sua degeneração, e sua morte, seu desenvolvimento e sua putrefação.

  • A observação direta [shokan] em japonês.
Esta é a essência de zazen, a forma de observação que vou analisar para vocês após minhas experiências.
A observação direta se confunde com a grande sabedoria que permite ver o aspecto real de todas as existências que são [mujo], impermanentes.
Na vida, nossa consciência está continuamente em movimento, solicitada por nossas próprias atividades interiores, e os múltiplos elementos exteriores. Por ela tomam forma as miríades de fenômenos aos quais ela empresta uma realidade estável, durável e substancial. Essa forma de consciência é chamada [nem], palavra que traduz a ideia da brevidade do instante; em outros termos, trata-se da consciência aprisionada no tempo, que não tem outras visões senão estas, todas relativas, se apresentando a ela no instante.
Ao contrário, a consciência que compreende intimamente [mujo] a impermanência se situa no não-movimento; ela está vazia de todo pensamento, não está submissa a nenhum elemento nem a nenhum aspecto, nem a nenhuma forma produzida pelo corpo, pelo pensamento ou pela palavra, e não acredita mais em nada dessas discriminações.
Ela está em [ku] vazio, é [ku] ela mesma, vacuidade absoluta.
Como temos visto precedentemente, na unidade reencontrada que anula toda discriminação, o espírito não se reflete, a mente é, inconscientemente, sem se ver. Então aparece o fundo do problema. Qual é a mente que se manifesta?
Falar de manifestação subentende a noção de tempo, orientado no sentido do passado para o futuro.
Ora, se a mente se manifestou no passado, o passado já findou, a mente não existe mais. Se ela se manifesta no presente, o presente sendo fugaz, inapreensível, a mente é identicamente inapreensível. Se a mente deve se manifestar no futuro, o futuro ainda não tendo chegado, a mente ainda não existe. Também é dito que da mente que ela é [fukatoku], totalmente inacessível, não manifestada no tempo, transcendência e potencialidade eterna.
Se considerarmos o tempo como uma sucessão de instantes presentes cuja característica é desaparecer logo que aparecem, podemos conceber da mesma maneira a manifestação fugidia da mente. Mas se tentamos então observar a mente que se manifesta, esta desaparece desde a primeira intenção de reflexão. Ela realmente existe?
Podemos dizer que ela é, de maneira eterna, em um presente sem cessar em movimento. Ela não reveste por si mesmo o aspecto do presente fugidio, aparecendo e desaparecendo; mas as existências, forjadas nos limites do tempo, são investidas da natureza da mente.
Durante zazen, a mente serena que se estabelece não pode, do mesmo modo ser observada. Ela é, muito simplesmente. Desde que tomamos providências no sentido de querer vê-la, um fosso incomensurável separa esta intenção da mente que existia e que desapareceu.
Podemos então perguntar o que ocorreu na origem desta intenção que conduziu à ruptura por discriminação.
Em um tempo infinito, o instante de um clarão para nossa consciência a mente se ensimesmou: ela se encerrou em um espaço fechado, agora a relação potencial com sua natureza infinita e ilimitada, mas impedida momentaneamente de qualquer mudança. Para que reapareça sua verdadeira natureza, o entrave deve ser afastado.
Assim é dito que é preciso pensar do fundo do não-pensamento. É chegar à verdadeira mente, inconscientemente, naturalmente, pela concentração profunda de zazen.

3. - O MÉTODO TRIPLO
Retorno mais detalhadamente sobre os métodos que devem conduzir o praticante ao justo estado de concentração e de observação.

A - MÉTODO PARA DESTRUIR OS EFEITOS DE [SANRAN] E [KONTIN]
SANRAN, define a mente flutuante errante, sonhadora, presente.
KONTIN, a mente que se obscurece e tomba na sonolência.
A mente de [sanran] nasce a partir do movimento afluente dos pensamentos. [San], significa estar distraído ou disperso. [Ran], estar na confusão. Quando nossa mente está nesse estado, é preciso temperá-lo por meio da concentração [shi].
A mente de [kontin] nasce a partir do estado de não-pensamento, [fushiryo], que ao se prolongar, faz cair a mente no estado obscuro da sonolência, seguida de sono. Neste momento, é necessário recolocar a mente na vigília por meio da observação [kan].
Em um e outro caso, observação e concentração devem ser praticadas de maneira apropriada, como a troca que se estabelece entre o medicamento e a doença.

B - MÉTODO PRÁTICO E APROPRIADO AO TEMPO E AS CIRCUNSTÂNCIAS
Se vocês sentem que estão caindo no estado de [kontin], e mesmo tendo recorrido à observação, não conseguiram clarificar suas mentes, se o método da observação não é suficiente nem eficaz, então é preferível parar momentaneamente a observação, e substitui-la por uma concentração apropriada.
Nesse momento, o corpo e a mente podem se encher de vigilância e de claridade. Nesse caso, vale mais utilizar a concentração que a observação, mesmo em estado de [kontin],
Se ao contrário, vocês sentirem suas mentes vagarem e se extraviarem num estado de [sanran], mesmo tendo recorrido à [sanran], não lograram conduzi-las à uma condição de paz, se o método da concentração é ineficaz, é melhor parar momentaneamente a concentração, e substitui-la pela observação apropriada.
Nesse momento, seus corpos e suas mentes podem se encher de tranquilidade e paz. Nesse caso, é preferível utilizar a observação, mesmo em [sanran].

C - MÉTODO PARA ESTABELECER O VERDADEIRO ESTADO DE SAMADHI PELA EXTINÇÃO DAS IMPRESSÕES SENSÍVEIS.
Pela extinção dos estados perturbados de [sanran] e [kontin] - segundo os métodos de concentração e observação descritos acima - a condição de samadhi pode aparecer: esta condição é o estado de concentração perfeita mantida pelo despertar total da mente, após a extinção momentânea de todas as formas de impressões inerentes a nossa consciência discriminatória e dualista; essas impressões são, todavia, suscetíveis de reaparecer a qualquer momento. Também o estado de samadhi é um estado delicado e muito sutil. Se com efeito nós não chegamos a compreender profundamente, com a totalidade de nosso ser, que esta condição delicada de samadhi não é verdadeira nem falsa, mas transcende a toda visão dualista, e que, em seguida nos apeguemos a um dos aspectos benfazejos dessa condição - serenidade e alegria profunda; então nascerão na consciência impressões apreciativas, que, por seu caráter discriminativo, nos afastarão bastante dessa condição. Mas se, inversamente, a compreensão absoluta nasce conjuntamente, pela fusão íntima de todo nosso ser com a condição de samadhi , esta se perpetuará naturalmente. Por esta compreensão além de toda discriminação, não se elevará mais em nossa mente nenhuma ilusão (de verdadeiro ou falso, de contentamento ou de temor, de amor ou de rejeição) originada de nossas opiniões apreciativas [ken].
Esse estado é chamado igualmente, estado de concentração.
Assim, para se desfazer de toda forma de impressão que nasce em razão da força de apego ao karma profundo dos [bonnos] (ações falsas do corpo, da palavra e da consciência) e nos enganam na discriminação, na apreciação e nos preconceitos, é requerida a objetivação consciente desses [bonnos] e dessas impressões por meio da observação vigilante e imparcial.
Então se desprende como casca velha de madeira todas as formas de apego ao karma. Esse método é igualmente chamado método da observação, e por ele pode ser instaurado o estado de concentração perfeita do samadhi.
Pela aparição harmoniosa da sabedoria, o "kanji" [jo], que corresponde ao termo sânscrito samadhi, designa o estado daquele que está estabelecido, fixo, imóvel e pacificado. O "kanji" [e] define a sabedoria, que nasce da compreensão íntima e profunda, intuitiva, imediata do todo. Nisso ela difere fundamentalmente do sentido que lhe é ordinariamente atribuído no vocabulário europeu (ocidental), e que faz referência à forma de sabedoria procedente da epistemologia, e, pois, limitada ao raciocínio. Esta é chamada [ninshiki-eki] em japonês.
Se, durante zazen, podeis entrar em samadhi, no meio do absoluto não-pensamento, isso não significa, portanto, que a sabedoria se manifestará simultaneamente. Nesse caso, se bem que o samadhi seja imobilização serena da mente, ficamos imobilizados somente na ignorância despida de profunda sabedoria. Assim é preciso que seja criada a sabedoria [e]. Se esta nasce do conhecimento saído da simples observação, ela permanece estreita e restrita só as conjecturas tiradas dos dados desta observação. É preciso pois que [e] apareça, sempre no meio da atenção, mas no estado de samadhi onde a consciência não está absorvida por um dado discriminatório, mas concentrada sobre a totalidade, em união com o todo. Nesse caso, a observação percebe de maneira global e a sabedoria se torna onisciente, universal e infinita. Inversamente, se durante zazen chegamos à sabedoria profunda (prajna, em sânscrito), através do estado de observação nascido do pensamento absoluto, isso não significa que chegamos simultaneamente ao perfeito e tranqüilo estado de samadhi. Nesse caso vossa sabedoria, se bem que clara e profunda, não conduziu à serenidade; faltando a estabilidade do samadhi, ela se dispersa em múltiplas direções onde se agita vossa consciência.
A sabedoria [e] capaz de observar [ku] vacuidade e [muso] o não-aspecto se não for acompanhada da serenidade do samadhi, é uma sabedoria falaciosa que conduz à loucura, assim, para que apareça o estado mental justo no zazen, deve se estabelecer na consciência, juntamente com a sabedoria, a condição de samadhi. Vemos, pois, aí ainda que concentração e observação são duas atitudes fundamentalmente complementares, cuja união conduz à autêntica sabedoria profunda na quietude do samadhi. Nesta condição harmoniosa do espírito, todas as formas de [bonnos] podem ser cortadas e o último ideal espiritual 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

DESEJO, AMOR E APEGO





Desejo, Amor e Apego 
Matthieu Ricard 



Como distinguir entre o amor verdadeiro e o apego  possessivo? O amor altruísta pode ser comparado ao som  puro que vem de um copo de cristal, e o apego ao dedo que,  ao tocar a beira do copo, abafa esse som. Reconhecemos  desde o princípio que a ideia de uma mor desprovido de apego  é relativamente estranha à sensibilidade ocidental. Ser  desapegado não significa que amamos menos a pessoa, mas  que não estamos centrados no amor por nós mesmos nos  escondendo no amor que dizemos sentir pelo outro. O amor  altruísta é a alegria de compartilhar da vida daqueles que  estão à nossa volta – os nosso familiares, os nossos amigos, os  nossos companheiros, a nossa esposa ou o nosso marido – e contribuir para a felicidade deles. Amamos o outro por aquilo que ele é e não através da lente distorcida do egocentrismo. Em vez de ficarmos apegados ao outro, temos que ter em mente a felicidade dele; em vez de esperar que ele nos traga alguma gratificação, podemos receber o seu amor recíproco com alegria.
E depois podemos ir ampliando e estendendo esse amor. É preciso ser capaz de amar todas as pessoas incondicionalmente. Amar um inimigo – isso é pedir demais? Esse empreendimento pode parecer impossível, mas baseia-se em uma observação muito simples: a de que todos os seres, sem exceção, querem evitar o sofrimento e conhecer a felicidade. O amor altruísta genuíno é o desejo de que isso possa se realizar. Se o amor que oferecemos depende do modo como somos tratados, nunca seremos capazes de amar o nosso inimigo. No entanto, é certamente possível ter a esperança de que ele pare de sofrer e seja feliz!
Como conciliar esse amor incondicional e imparcial com o fato de que temos na nossa existência relações preferenciais com certas pessoas? Tomemos o sol como exemplo. Ele brilha para todos, com o mesmo calor e a mesma claridade, em todas as direções. Mas há seres que, por diversas razões, se encontram mais perto dele e que, por isso, recebem mais calor. Mas em nenhum momento essa situação privilegiada é uma exclusão. Apesar das limitações inerentes a qualquer metáfora, compreendemos que é possível gerar em si mesmo uma bondade a partir da qual chegamos a olhar para todos os seres como se fossem pais, mães, irmãos, irmãs ou filhos. No Nepal, por exemplo, chamamos qualquer mulher mais velha do que nós de “grande irmã”, e a mulher mais nova, de “pequena irmã”. Essa bondade aberta, altruísta e atenciosa, longe de diminuir o amor que sentimos por aqueles que nos são mais próximos, só o faz aumentar, aprofundar-se e ficar ainda mais belo.
É claro que temos que ser realistas – concretamente é impossível manifestar da mesma maneira a nossa afeição e o nosso amor por todos os seres vivos. É normal que os efeitos do nosso amor envolvam mais determinadas pessoas do que outras. No entanto, não há razão para que uma relação especial que temos com um amigo ou um companheiro limite o amor e a compaixão que sentimos por todas as pessoas. A essa limitação, quando surge, damos o nome de apego. O apego é nocivo na medida em que, sem propósito algum, restringe o campo de ação do amor altruísta. É como se o sol deixasse de brilhar em todas as direções e se reduzisse a um estreito feixe de luz. O apego é fonte de sofrimento porque o amor egoísta se bate contra as barreiras que ele mesmo levantou. A verdade é que o desejo possessivo e exclusivista, a obsessão e o ciúme só têm sentido no universo fechado do apego. O amor altruísta é a mais expressão da natureza humana, quando essa natureza não é viciada, obscurecida e distorcida pelas manipulações do ego. O amor altruísta abre uma porta interior que torna inoperante o sentimento de importância de si mesmo e, portanto, também o medo desaparece. Ele nos permite dar alegremente e receber com gratidão.
Trecho do livro “Felicidade – A prática do Bem Estar”

quarta-feira, 20 de maio de 2015

RAÍZES DO SOFRIMENTO - Matthieu Ricard








              O budismo analisa e desmonta os mecanismos da felicidade e do sofrimento. De onde provém o sofrimento? Quais são as causas dele? Como remediá-lo? Pouco a pouco, ao mesmo tempo pela análise e pela contemplação, o budismo remota às causas profundas do sofrimento. É uma busca que interessa ao todo ser humano, seja ele budista ou não.

                O sofrimento é um profundo estado de insatisfação, talvez associado a dor física, mas que antes de tudo é uma experiência do espírito. É evidente que diferentes pessoas percebem de maneiras opostas as mesmas coisas, sejam elas agradáveis ou desagradáveis. O sofrimento surge quando o “eu”, que nós prezamos e protegemos, está ameaçado ou não obtém aquilo que deseja. Os mais intensos sofrimentos físicos podem ser vividos de maneiras muito diferentes, segundo nossa disposição de espírito. Além disso, os objetivos corriqueiros da existência – o poder, as posses, os prazeres dos sentidos, a fama – podem proporcionar satisfações momentâneas, mas não são nunca fontes de satisfação permanente e, cedo ou tarde, se transformam em descontentamento. Tais satisfações jamais trazem uma plenitude durável, uma paz interior invulnerável às circunstâncias externas. Ao perseguirmos objetivos mundanos durante toda a vida, temos tão pouca chance de atingir uma felicidade verdadeira quanto um pescador que lançar suas redes em um rio seco.
                Esse estado de insatisfação e característico do mundo condicionado, que, por natureza, só pode trazer satisfações efêmeras. Em termos budistas, diremos que o mundo ou ‘círculo` dos renascimentos, o sandara, é impregnado de sofrimento. Mas isso não é nem um pouco uma visão pessimista do mundo, é uma simples constatação.  A etapa seguinte consiste de fato em procurar remédios para esse sofrimento. Para isso, é preciso conhecer a causa dele. Em uma primeira análise, o budismo conclui que o sofrimento nasce do desejo, do apego, do ódio, do orgulho, da inveja, da falta de discernimento e de todos os fatores mentais que são chamados “negativos” ou “obscurecedores”, porque transtornam o espírito e o mergulham em um estado de confusão e insegurança. Essas emoções negativas nascem da noção de um “eu” que prezamos e queremos proteger a qualquer preço. Esse apego ao eu é um fato, mas o objeto desse apego, o “eu” não tem nenhuma existência real – não existe em parte alguma e de modo algum como uma entidade autônoma e permanente. Não existem nas partes que constituem o indivíduo – o corpo e o espírito -, nem fora dessas partes, nem no agregado delas. Se argumentarmos que o eu corresponde à reunião dessas partes, isso resulta em admitir que ele não passa de uma simples etiqueta colocada pelo intelecto à reunião temporária de diversos elementos interdependentes. Na verdade, o eu não existe em nenhum desses elementos, e sua própria noção desaparece assim que esses elementos se separam. Não desmascarar a impostura do eu é ignorância: incapacidade momentânea de reconhecer a natureza verdadeira das coisas. Portanto, é essa ignorância a causa última do sofrimento. Se conseguirmos dissipar nossa compreensão errônea do eu e da crença na solidez dos fenômenos, se reconhecemos que esse “eu” não tem existência própria, por que temeríamos não obter o que desejamos e sofrer o que não desejamos? 


Extraído do livro O Monge e o Filósofo - Jean-François Revel; Matthieu Ricard 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Aumento de temperatura corporal na meditação g-tummo


G-Tummo

            A prática meditativa g-tummo dirigida a controlar a "energia interior" é descrita pelos praticantes Tibetanos como uma das práticas espirituais mais sagradas nas tradições indo-tibetanas do Budismo Vajrayana e Bon. É também chamada de prática do "calor psíquico", uma vez que está associada a sensações intensas de calor corporal na coluna. [1]-[3] Pouco se sabe sobre os detalhes da técnica de g-tummo. Os mosteiros que mantêm uma prática continuada de g-tummo são bastante raros e localizados principalmente nas províncias remotas chinesas de Qinghai e Sichuan (também conhecido como leste do Tibete). Relatos de testemunhas oculares descrevem os praticantes de g-tummo como sendo capazes de gerar calor suficiente para secar lençóis molhados envoltos em torno dos seus corpos nus, produzindo uma quantidade visível de vapor, enquanto sentados ou em pé no frio dos Himalaias.[4], [5]

As únicas tentativas para estudar os efeitos fisiológicos do g-tummo foram realizadas por Benson e colaboradores [6], [7] que pesquisaram Yogis Indo-Tibetanos nos Himalaias e na Índia. Os autores relataram que três meditadores g-tummo mostraram um aumento dramático de até 8,3°C na temperatura corporal periférica (dedos das mãos e dos pés), os aumentos da de temperatura da pele foram mais modestos: 1,9°C nas regiões do umbigo e lombar, e nenhum aumento na temperatura rectal. Infelizmente, estes resultados foram posteriormente distorcidos em relatórios noutras fontes, possivelmente devido a uma confusão entre as escalas Fahrenheit e Celsius ou falta de especificação clara sobre os sítios anatômicos de medição de temperatura, levando a afirmações gerais de aumentos de temperatura durante o g-tummo que variam desde "... até 15 graus apenas após alguns momentos de concentração " [3] para" até “17 graus de aumento na temperatura corporal periférica "[8].

A prática g-tummo envolve a componente somática e a componentes cognitiva. A componente somática é constituída por técnicas de respiração específicas, bem como exercícios isométricos (exercícios realizados em posições estáticas), envolvendo estiramento e contracção muscular . A componente neurocognitiva envolve a visualização meditativa exigindo a geração e manutenção de imagens mentais de chamas em locais específicos no corpo acompanhado por sensações intensas de calor corporal na coluna vertebral. As questões permanecem sobre se a prática do g-tummo está de facto associada a um aumento da temperatura corporal, e se estes aumentos de temperatura são devidos a alterações cognitivas (atenção, visualizações) ou meramente somáticas.

Inicialmente, foi realizado um estudo em mosteiros remotos, do leste do Tibete, com 10 meditadores experientes a executar práticas g-tummo enquanto a sua temperatura corporal axilar e actividade cerebral (EEG) estavam a ser medidas. Segundo, para continuar a investigar a contribuição da componente somática e a componente cognitiva da prática g-tummo, realizou-se um estudo adicional com 11 participantes ocidentais (não-meditadores), instruídos a usar a componente somática da prática g-tummo sem utilização de visualizações meditativas.


Dois tipos de prática g-tummo
A prática g-tummo caracteriza-se por uma técnica especial de respiração, o "vaso", acompanhada por contracções musculares isométricas, em que após a inalação, durante um período de suster a respiração (apneia), os praticantes contraem os músculos abdominais e pélvicos de forma a que a zona abdominal inferior saliente toma a forma de um vaso ou panela [1].

A tradição oral, como confirmado pelas extensas entrevistas realizadas com praticantes de g-tummo, diferencia entre pelo menos dois tipos principais de práticas g-tummo: a respiração forte (RF) e a respiração suave (RS). Estes tipos de g-tummo diferem não só em termos da técnica de respiração envolvidas, mas também nos seus objetivos e no conteúdo de visualização. Embora ambos RF e RS sejam baseados na técnica de respiração "vaso", RF é forte e vigoroso, enquanto RS é suave e sem qualquer tensão. Considerando que a meta da RF é aumentar o "calor psíquico", o objectivo da RS é mantê-lo. Durante RF, a atenção é focada na visualização de uma chama crescente que começa abaixo do umbigo e com cada respiração sobe para o alto da cabeça, enquanto a RS é acompanhada pela visualização de todo o corpo a ser preenchido com uma sensação crescente de felicidade e calor. 



Discussão
Verificou-se um aumento da temperatura durante a prática Respiração Forçada, não apenas através da RF, mas também através da respiração tipo ‘vaso’. No entanto, os resultados dos estudos 1 e 2 sugerem que a componente neurocognitiva (“atenção internalizada" em imagens visuais) da prática meditação com respiração forçada pode facilitar a elevação da temperatura corporal para além da temperatura normal do corpo (perto da zona de febre), ao passo que o aumento da temperatura corporal durante somente a RF e respiração vaso é limitado, e não excedeu a faixa de temperatura normal do corpo. No entanto, ambos os factores trabalham em conjunto para maximizar o aumento da temperatura. Isto é, a RF componente somática (respiração vaso) causa efeitos termogênicos, enquanto a componente cognitiva (visualização meditativa) parece ser a chave para facilitar um aumento sustentado da temperatura do corpo por longos períodos, possivelmente devido a mitigação mecanismos fisiológicos que levam à perda de calor. No caso da meditação RF, um dos mecanismos possíveis da prevenção da perda de calor pode ser a imagem mental do calor e das chamas. De facto, pesquisas anteriores já consideraram a imagem mental como uma técnica potencialmente eficaz para influenciar a temperatura corporal periférica, o fluxo de sangue, e vasodilatação local [9] - [12]. 
Assim, é possível que a componente das visualizações mentais  durante a meditação com RF minimize a a perda de calor e, assim, prolongue o tempo de subida da temperatura corporal por mecanismos semelhantes (alterações do fluxo sanguíneo reduzido, vasodilatação). Sem a visualização de acompanhamento na meditação, a respiração vaso pode não ser muito eficaz e resultar em aumentos de temperatura corporal limitados. Ao mesmo tempo, sem uma técnica eficaz de respiração RF, mesmo pequenos aumentos da temperatura corporal, se possível, pode requerer períodos de meditação significativamente mais longos.



Aplicações dos resultados da investigação
Os resultados do estudo mostraram que aspectos específicos das técnicas de meditação podem ser usados por não-praticantes de meditação para regular a temperatura do corpo através da respiração e imagens mentais. As técnicas poderiam permitir que os praticantes se adaptem e funcionem em ambientes frios, melhorar a resistência a infecções, aumentar o desempenho cognitivo, acelerando o tempo de resposta e reduzir os problemas de desempenho associados com a temperatura do corpo diminuída.


Por Vítor Bertocchini

Referências Bilbliográficas:

1.Evans-Wentz WY (2002) Tibetan Yoga and Secret Doctrines (Pilgrims Publishing, Varanisa, India).

2.Mullin GH (1997) Readings on Six Yogas of Naropa (Snow Lion Publication, Ithaca, NY).

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Artigo Original: Neurocognitive and Somatic Components of Temperature Increases during g-Tummo Meditation: Legend and Reality

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